A pinga e o tombo: Por que o excitante jogo erótico terminou mal?
Diz um velho ditado popular: “o povo só vê as pingas que eu tomo, mas ninguém vê os tombos que eu levo”. Hoje essa máxima não se cumprirá. Vamos juntos buscar alguma compreensão sobre um intenso deleite e seu desfecho inesperado. Antes, contudo, de visitarmos o instigante texto de Milan Kundera escolhido por Hemerson para a estreia do Literatura e Psicanálise da SPPEL, faço aqui um destaque sobre os títulos. Primeiramente, o título do conto: O jogo da carona. É isso o que os personagens tentarão fazer: inventar uma brincadeira erótica. E conseguirão, como já sabemos. Mas, novamente, como tantas vezes acontece com cada um de nós e não somente com Édipo, representante maior da primazia do inconsciente, pensando que nossa inteligência de Homo Sapiens nos faz donos do jogo, na realidade somos tragicamente joguetes de circunstâncias externas e internas. “O ego é um pobre coitado”, não foi exagero de Freud afirmar isso.
Também o título do livro me parece ter um sentido imediato para nós, psicanalistas: Risíveis Amores. Podemos levar muito a sério um amor enquanto o vivemos. No entanto, olhando para trás, há algo de cômico naquilo tudo que pensamos, e sentimos e fizemos junto à pessoa por quem estivemos apaixonados. “Todas as cartas de amor são ridículas; se não fossem ridículas, não seriam cartas de amor”, escreveu Fernando Pessoa. E são mesmo ridículas, risíveis, à medida que registram no papel uma espécie de loucura, um transbordamento de demanda narcísica que nem aquela pessoa, e nenhuma outra, poderia atender para sempre. Ao amar, somos arrastados para uma ciranda atordoante de expectativas e desilusões que se torna cômica quando vista retrospectivamente. Releia um e-mail que você escreveu no auge do encantamento, ou após um desentendimento. Releia em voz alta sua mensagem de indignação, sua ameaça de ruptura, sua frase de perdão. Releia a despedida final declarando que um belíssimo destino foi arruinado por culpa exclusiva do outro. É provável que ache graça – ou sinta-se ingênuo – relendo aquelas frases dramáticas que, ao serem escritas, soaram a você a pura verdade.
Volta-me um conhecido aforismo de Lacan (Seminário 8, A Transferência): “Amar é dar aquilo que não se tem”, algo que propositalmente causa estranhamento em nossos ouvidos. Afinal, como alguém oferece o que não possui? É o que ele nos provoca a considerar. É claro que entendemos facilmente que o desejo é a busca de algo que nos falta. Buscamos alimento se estamos com fome. Buscamos proteção se estamos com medo. Buscamos informação se estamos confusos. Buscamos excitação se estamos com tédio. Mas o que essa construção de Lacan ilumina é que nossa falta presenteia (e depois sobrecarrega) o outro com uma prerrogativa, um poder especial. Isso significa dizer que parte do que oferecemos ao outro é a ilusão de que conseguirá preencher nosso vazio, como se finalmente nossa ânsia difusa e imensa pudesse ser curada. Desse ponto de vista, a plena satisfação entre os amantes, o “par perfeito”, aquele encontro das metades que Platão descreve, é uma ilusão esplêndida que necessariamente dura pouco.
E aqui vem Kundera trazendo uma imagem que capta o que há de fundamental no êxtase amoroso: não é que duas partes se encaixem harmonicamente. Há um espaço vazio em movimento, um lugar que se oferece a alguém que talvez queira preenchê-lo – não para sempre, feito chave e fechadura, ou tampa e panela, ou dedo e aliança. Numa carona o vazio da poltrona é ocupado por uma companhia provisória. Fort-da, longe-perto, vai-e-volta, Freud impressionou-se vendo o neto brincar assim com o carretel da ausência da mãe. Aqui, no jogo da carona, um jogo de entra-e-sai, temos um automóvel em movimento, no qual o lugar do passageiro está vazio. Então uma moça repentinamente aparece na beira da estrada. Surge de trás de um bosque e agora caminha. O rapaz encosta o carro, abre a porta, e a deixa entrar. Seguem até um hotel e conversam pouco, apenas o suficiente para ele lembrá-la que o interesse dele é apenas sexual. Embora ela se comporte de modo a atrair olhares de outros homens, isso não o torna ciumento, pois ela nada mais é do que um corpo ali disposto como um brinquedo, um carretel de linha que ele domina. O sexo é feito como se fosse uma imposição dele, uma descarga de excitação que usa o corpo dela como instrumento.
Ela se submete? Ela se humilha? Ela se deixa violentar? Não é o que parece... Ela sente prazer com esse “faz-de-conta que sou uma puta, uma moça perdida que foi resgatada por um homem na estrada”, o que torna a relação deles bem mais interessante para nós do que se fosse apenas mais um caso – terrivelmente banal – de violência masculina contra uma mulher. Num primeiro momento a situação pode indignar nossa sensibilidade feminista. Como uma mulher suporta uma coisa dessas? O ponto é que ela não “aguenta” – ela quer! Há um intenso prazer compartilhado nesse jogo no qual os dois entram, juntos.
Seu papel? Qual? Um papel extraído da má literatura. Ela havia parado o carro não para ir aqui ou ali, mas para seduzir o homem sentado ao volante; a garota da carona era somente uma vil sedutora que sabia usar admiravelmente seu charme. A moça entrou na pele desse ridículo personagem de romance com uma facilidade que a surpreendeu e encantou (p. 78).
[...] ela sorria; parecia-lhe bom que, dessa vez, fosse ela a desconhecida, irresponsável e indecente, uma daquelas que lhe despertavam tanto ciúmes; acreditava assim suplantá-las; ter encontrado o meio de se apoderar das armas delas; de oferecer enfim ao namorado o que até agora não soubera lhe dar: a leveza, a despreocupação, o despudor; sentia especial satisfação ao pensar que ela sozinha podia ser todas as mulheres e podia assim (ela sozinha) açambarcar toda a atenção do seu bem-amado e absorvê-lo inteiramente (p. 80-81).
Aquela vida de outra em que de repente mergulhara era uma vida sem pudor, sem determinações biográficas, sem passado e sem futuro, sem compromisso; era uma vida excepcionalmente livre. Transformada na garota da carona, ela podia tudo; tudo lhe era permitido; dizer tudo, fazer tudo, experimentar tudo (p. 84).
Aqui vale um parêntesis sobre a amoralidade que une Psicanálise e Literatura. Em nenhum desses campos do conhecimento impera o propósito de criar mentes equilibradas e virtuosas. Um trabalho analítico que anunciasse esse objetivo seria considerado uma grave impostura ética. E uma obra que nos apresentasse a um personagem admirável, que se corrige, se aperfeiçoa, e se torna uma referência moral, seria uma obra religiosa ou de autoajuda e jamais uma obra literária.
Dois breves exemplos:
- Édipo, o anti-herói de Sófocles que tanto interessou a Freud. Tentando escapar do incesto, ele assassina o pai, liga-se à mãe num casamento incestuoso e atrai pragas de arrasam Tebas. Sua única virtude admirável é a coragem de buscar a verdade até o fim. E, no entanto, essa busca que cessará as pragas, também causará o suicídio de Jocasta, a morte trágica de todos os seus filhos e entregará Tebas ao poder despótico de Creonte.
- Orestes, o personagem que Melanie Klein explora. Aqui um filho volta para a Grécia e mata a mãe, Clitemnestra, vingando a morte do pai. Sabemos que Clitemnestra tinha boas razões para odiar Agamemnon já que ele havia sacrificado a filha Ifigênia a fim de que os ventos soprassem a favor dos barcos gregos que precisavam chegar à Troia. Entregar um ser humano, sobretudo um filho, em sacrifício, era uma atrocidade. Mas o que incita a vingança de Orestes: o assassinato do pai ou o casamento da mãe com Egisto? É a mesma trama que reapareceria depois em Hamlet. Julgado por seu crime, há um empate, seis votos o condenam e seis o absolvem. Quem desempata, a favor de Orestes, é a deusa Atena, ou Minerva. Daí a expressão “voto de Minerva”.
Gostamos de testemunhar a história dessas pessoas que cometeram atos extremos. Quando escrevemos ou lemos, fazemos de conta que somos aquele ser que vive desvairadamente algo que tentamos conter em nós, um truque para o qual Freud chama nossa atenção em “Escritores criativos e devaneios” (1908). O personagem oferece-nos “a possibilidade de nos deleitarmos com nossos próprios devaneios” enquanto nos resguardamos em segurança. Por um lapso de tempo fazemos o que fazem os psicóticos, diz Freud, mas com uma diferença: fugimos da nossa realidade e voltamos para ela instantes depois, enquanto os psicóticos ficam presos nessa teia de fantasias onde conseguem sentir-se protegidos da aniquilação.
No conto, quando esse homem e essa mulher fingem que são o sujeito que dá carona e a moça que dá o corpo, então podem experimentar uma intensidade de prazer que na vida real é bastante diluída.
“justamente por ser um jogo a alma não sentia medo, não se defendia e se abandonava ao jogo como a uma droga” (p. 86).
Nesse jogo em que ele abusa dela fisicamente e ela é abusada por ele, nem ele, nem ela, enfrentam todos aqueles desafios e desilusões inerentes às relações amorosas nas quais entramos “de corpo e alma”. Estamos, portanto, enxergando nesse jogo uma função defensiva. E o que é uma defesa senão um lugar seguro para o qual repetidamente voltamos quando a realidade nos ameaça?
Freud, em 1910, dedicou um artigo (“Um tipo especial de escolha de objeto feita pelos homens”) exatamente a esse arranjo neurótico pelo qual o homem adulto regride a certo ponto de fixação que chamamos de analidade já que, na dimensão psíquica, estamos nos referindo à experiência de controlar. Nesse texto Freud explora três preferências eróticas: a mulher adúltera, a prostituta e a figura desvalida que precisa de um homem para salvá-la. Em todos esses casos a mulher é um objeto inofensivo à organização dos investimentos libidinais do homem. Ela nada pode exigir além daquilo que ele próprio deseja oferecer. Dois anos à frente, em 1912, Freud segue publicando “Sobre a tendência universal à depreciação na esfera do amor”, onde faz uma longa digressão sobre a separação forçada entre o amor sagrado (o amor à pessoa da mãe) e o amor profano/animal (o desejo pelo corpo da mãe):
“Quando amam, não desejam, e quando desejam, não podem amar. Procuram objetos que não precisem amar, de modo a manter sua sensualidade afastada dos objetos que amam [...]. A principal medida protetora contra essa perturbação a que os homens recorrem nessa divisão de seu amor consiste na depreciação do objeto sexual [...]. Logo que se consuma a condição de depreciação, a sensualidade pode se expressar livremente, estimulando importantes capacidades sexuais e alto grau de prazer” (p. 188-189).
Mais um parêntesis, agora nesse ponto em que falamos da depreciação feminina enquanto defesa masculina: Em A casa das belas adormecidas (Yasunari Kawabata) e Memórias de minhas putas tristes (Gabriel Garcia Márquez), as moças estão sempre dormindo enquanto os homens se excitam. Eles nunca se deparam com a pessoa; somente com o jovem corpo da prostituta num estado de paralisia. Outros escritores inventaram personagens que são mulheres em coma, ou futuras mulheres (crianças) ou simulacros de mulheres. Sadegh Hedayat, um fabuloso escritor iraniano (que tentou suicídio várias vezes até que conseguiu), imaginou a paixão obcecada de um homem por uma manequim de louça que ele vê numa vitrine. Aliás, um enredo também desenvolvido por Isabel Allende num conto, intitulado “A gorda de porcelana”, que narra a relação de um escriturário obsessivo e taciturno, Don Cornelio, com uma estátua de porcelana que ele nomeia Fantasia.
E como aparece essa bipartição erótica no conto do Kundera, essa cisão que isola a sensualidade feminina de tudo mais que constitui uma mulher? Vejamos que antes do sexo, antes do jogo da carona, temos sinais de uma relação amorosa que, como tal, nunca é simples.
Continuando a dirigir, ele a abraçou e lhe deu um beijo na testa. Sabia que ela o amava e era ciumenta. O ciúme não é um traço de caráter muito simpático, mas se tomamos cuidado para não abusar dele (se vem acompanhado de comedimento), ele tem, apesar de todos os inconvenientes, qualquer coisa de comovente. [...] O que apreciava na moça sentada a seu lado era justamente aquilo que achava mais raro encontrar nas mulheres: a pureza. (p. 71-72)
A moça detestava ser obrigada a lhe pedir (em geral ele dirigia por horas seguidas) que parasse diante de um bosque. Sempre se irritava com a surpresa fingida com que ele lhe perguntava por quê. Desejava se sentir bem com seu corpo, sem inquietações nem ansiedade. (p. 73)
Ela o queria inteiramente para si e queria ser inteiramente dele, mas quanto mais se esforçava para lhe dar tudo, mais tinha a sensação de lhe recusar aquilo que um amor pouco profundo e superficial proporciona, aquilo que o flerte proporciona. Ela se censurava por não saber conciliar a seriedade com a leveza (p. 73).
Naquele dia, porém, ela não se atormentava e não pensava em nada disso. Sentia-se bem. Era o primeiro dia de férias de ambos, o céu estava azul e ele estava com ela (p. 74).
Aqui o autor traça uma linha divisória entre a vida real e as férias da realidade! A partir de agora estão livres das complexidades de uma relação.
- Hoje estou com sorte. Há cinco anos que dirijo e nunca dei carona a uma moça tão bonita. -
Você sabe mentir bem. - Tenho cara de mentiroso?
- Tem cara de quem gosta de mentir para as mulheres.
- Isso a incomoda?
- Se eu fosse sua namorada me incomodaria.
- Uma mulher sempre perdoa mais facilmente um estranho do que um namorado. Portanto, podemos nos entender muito bem, pois somos estranhos um ao outro.
- Para quê isso se vamos nos separar daqui a alguns instantes?
Esse é o cerne do jogo: descomplicar a relação, reduzindo-a a uma experiência unidimensional, um corpo a corpo que liga dois estranhos durante um breve tempo. Fora do reino das palavras, das conversas difíceis e intermináveis, das conjecturas e convicções sobre quem ela é para ele e vice-versa, somente fora desse reino o encaixe é perfeito.
Manoel Bandeira disse isso de um modo bem mais bonito do que sou capaz:
A arte de amar
Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma,
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.
Milan Kundera, nesse conto publicado em 1969, anuncia um temor masculino que ele viria a explorar depois, em 1984, em A insustentável leveza do ser. Tomás não pode suportar a imaterialidade de seus amores, todas a dança fluida de emoções e ideias. É um cirurgião que vive sozinho. Tem um filho que pouco encontra. Tem uma amante casada, uma fotógrafa. Aceita Tereza em sua vida, mas continua o relacionamento eventual com Sabine e outras tantas mulheres. Vê Tereza se tornar uma fotógrafa também. Ele opera pacientes anestesiados, estáticos; elas paralisam as memórias sobre acontecimentos. Ao fazer das mulheres seus casos sexuais variados, numa poligamia defensiva, Tomás refreia a emergência da mulher inteira, a mulher incompreensível e insatisfeita. Foge da leveza insustentável refugiando-se em materialidades. A primeira metáfora erótica com Tereza? Ela chegando para ele num cesto, um bebê perdido como Moisés, como Édipo. “Es muss sein”, Tomás repete, aludindo à uma sinfonia de Beethoven (sinfonia 16 em F maior, op. 135): “Assim tem que ser”. Nada além disso. Ouçam à sinfonia e percebam a resignação que expressa. É um lamento tranquilo, de quem renunciou ao mistério atemorizante, em prol do apequenamento do objeto amoroso.
Uma outra maneira de expressar isso é afirmar que o sujeito faz uma fetichização, isto é, substitui um objeto complexo e imperfeito por outro, agora perfeito e enfeitiçador (daí a palavra “fetiche”, aquilo que enfeitiça). Ainda que Freud, lá no texto de 1927, entenda o fetiche como um sintoma neurótico, ele destaca o prazer intrínseco à essa transformação redutora de objetos: “Via de regra, [os homens] mostram-se inteiramente satisfeitos com ele [o fetiche] ou até mesmo louvam o modo como lhes facilita a vida erótica” (p. 155).
Onde podemos ver essa facilitação? Um exemplo:
[...] Então descobriu subitamente o seu personagem: desistiu dos galanteios, que eram uma forma disfarçada de agradar à namorada, e se pôs a representar o homem duro que, em suas relações com as mulheres, acentua os aspectos mais brutais da virilidade: a vontade, o cinismo, a segurança (p. 77).
[...] embora não se assemelhasse a esse tipo de homem (duro e satânico), em outros tempos desejara que isso acontecesse. Certamente é um desejo bastante ingênuo, mas o que fazer: os desejos pueris escapam a todas as armadilhas do espírito adulto e às vezes sobrevivem até a mais longínqua velhice. E esse desejo pueril aproveitou a oportunidade para encarnar o papel que lhe era proposto (p. 77).
Qual papel? O papel de um homem que reduz a mulher a um objeto. Lembremos do brinde que ele levanta:
Bem, não vou beber à sua saúde, mas à saúde da sua espécie, que alia às melhores qualidades do animal os defeitos do ser humano.
Quando a moça reclama dessa comparação, ele faz uma aparente retificação que na verdade confirma a ofensa:
À sua alma, que se inflama quando desce da cabeça até o ventre e que se apaga quando volta a subir do ventre para a cabeça (p. 82)
O que tão somente importa na mulher é a parte do corpo que o homem usa para brincar; essa mulher desalmada e reduzida a animal no cio. O conto poderia terminar logo após esse brinde, quando vão para o quarto e fazem sexo como se fossem uma prostituta e um cliente. Entretanto, aqui surge outra camada, conferindo mais densidade emocional aos personagens. O jogo erótico o enfurece. A visão da namorada naquele papel fictício em que ele a colocara o faz, de repente, perceber que ela é um ser polimorfo, que traz em si uma multiplicidade quase intolerável para ele. O objeto fetichizado se insurge e, em vez de representar a mulher, agora se integra a ela. A libertina que gosta de sexo, agora faz parte da namorada.
Queria humilhá-la. Não a garota da carona, mas ela, sua namorada. O jogo acabava se confundindo com a vida. Detestava a mulher que estava ali, diante dele. [...] Nunca ela se despira assim. A timidez, a sensação de pânico, a vertigem, tudo aquilo que sentia quando se despia diante do rapaz, tudo aquilo desaparecera. Permanecia diante dele, segura de si, insolente, em plena claridade, e surpresa ao descobrir de repente gestos até então desconhecidos ao se desnudar de forma lenta e inebriante. Atenta a seus olhares, ela tirava a roupa, uma peça após a outra, amorosamente, e saboreava cada etapa do seu despojamento.
Ela se assusta com a fúria dele, mas goza como nunca ao atravessar a “fronteira proibida” para além da qual está “o amor sem sentimento e sem amor”.
Ele goza como nunca, e depois se assusta frente àquela que ele pensava conhecer.
Ainda nus, ela tenta alcançar a mão dele:
Sou eu, sou eu, sou eu...
Ele se mantinha calado, imóvel, e compreendia muito bem a triste inconsistência da afirmação da namorada em que o desconhecido se definia pelo mesmo desconhecido.
Fim do jogo, fim do feitiço-fetiche. Abrem-se os olhos e ambos ressurgem incompletos, faltantes. Dois objetos de amor fadados à desilusão. Nem ela é a única fêmea capaz de seduzi-lo, nem ele é o macho seguro e autossuficiente que faz da mulher uma refém de suas fantasias. Vão-se os personagens do jogo erótico, ficam dois seres humanos imperfeitos e sedentos de uma “plenitude oceânica” (como definiu Freud) que somente podemos encontrar no sonho, no delírio, no jogo.
O conto acaba nesse ponto de máxima tensão, como ocorre também em muitas sessões de análise. Não há resolução para a angústia desses amantes – estamos frente a dois seres amedrontados, que brincaram com fogo e descobriram algo que já intuíam sobre as vicissitudes das relações afetivas. Como termina o texto? Nosso personagem quer sentir menos raiva e mais compaixão.
Essa capacidade difícil me faz dividir aqui uma última ideia: penso que a disposição compassiva – oposta a estados como a arrogância e intolerância – seja uma dádiva que continuamente oferecem nos a Literatura e a Psicanálise. Podemos sair mais eruditos de uma leitura. Podemos sair mais aliviados de uma sessão. Mas quando a Literatura ou a Psicanálise alargam as possibilidades de nosso medroso psiquismo, então terão exercido seu poder maior.
Maria Carolina Scoz - Psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Campinas (FEBRAPSI/IPA)
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